Um tambor que toca

•Abril 7, 2016 • 1 Comentário

Um tambor que toca me faz lembrar que nada é mais importante ou mais urgente que um tambor que toca.
Sinto a alma borbulhar todinha dentro do corpo.
Os espíritos dos meus ancestrais me pegam pela mão e me puxam.
Dos meus ancestrais esquecidos, desconhecidos;
Os que vieram da África, que tinham o ébano na pele e o tambor no coração;
Os que morreram na lavoura, sem nome e sem direito;
Que já ficaram tão distantes na genealogia e no sangue;
Mas que estão aqui tão vivos e brincantes, dançando sob a minha pele
Toda vez que um tambor toca.

Verde

•Março 11, 2015 • Deixe um comentário

Chove.

No silêncio raro da noite

penso ouvir muito vivo

o murmúrio do rio embaixo do asfalto.

Adormeço ao som do insurgente

que mesmo amordaçado,

canta.

Cláudia.

•Março 17, 2014 • Deixe um comentário

Talvez eu só esteja mais sensível hoje, mas não interessa. O fato é que quando, esta manhã, eu vi a notícia sobre o assassinato brutal de Cláudia – carioca do Morro da Congonha, q eu não conheço e não chegaria a conhecer – pela PM carioca, foi como levar um soco no estômago. Todos os dias somos bombardeados por notícias de violência e injustiça q nos fazem duvidar um pouco da humanidade, mas essa história acionou dentro de mim uma enorme angústia.

Como podemos viver num país em que a polícia atira numa pessoa inocente e enfia dentro do porta-malas como se fosse um animal? Meu deus, nem um animal deveria ser tratado com tamanho desprezo, e era um ser humano, uma mãe, uma esposa, uma pessoa, alguém com medo, sentimentos e sonhos. E ainda se tratasse do pior dentre os mortais, como pode passar pela cabeça dos policiais que é aceitável tratar alguém assim?

E se esse porta-malas não tivesse aberto e revelado em plena luz do dia o horror, o horror, será que Cláudia não seria apenas mais um caso de desaparecimento?

A PM, em uma nota covarde, nega que seja essa a sua conduta. “O comando da PM afirmou que este tipo de conduta não condiz com um dos principais valores da corporação que é a preservação da vida e da dignidade humana“.

PRESERVAÇÃO DA VIDA E DIGNIDADE HUMANA, PM???????? De quem?? Pq parece que essa regra não se aplica aos pobres, pretos e moradores de favela, não é mesmo? No Brasil, a vida dessas pessoas vale menos. Ou não vale nada. Pq os valores que levaram os digníssimos policiais a considerarem possível, aceitável, plausível e executável colocar uma PESSOA ferida no porta-malas de uma viatura, esses valores nada tem a ver com a preservação da dignidade humana, no meu ponto de vista.

E o que vai acontecer com os assassinos fardados? “Eles estão sendo autuados e serão conduzidos à unidade prisional” BLÁ BLÁ BLÁ BLÁ BLÁ BLÁ BLÁ

NADA. O que aconteceu com os assassinos de Amarildo? Até agora nada.

“Lamentamos muito a forma como a senhora Cláudia foi socorrida, é uma forma que nós não toleramos. A corporação não compactua com isso”. É mentira. A PM pode lamentar o quanto quiser, pode negar o quanto quiser, mas enquanto não fizer algo de realmente concreto para coibir esse tipo de conduta, é cúmplice e compactua com essa barbárie.

E a família de Cláudia, família pobre da favela, além de ter que passar pela dor de perder um ente querido de uma forma tão cruel, conhecerá também o desespero de saber que a justiça não será feita.

O que eu sinto hoje, além de tristeza, é horror. Horror pelo que aconteceu com Cláudia, horror de viver num país que aceita esse tipo de coisa, horror de não ver na escuridão uma saída.

 

 

 

Given to fly

•Fevereiro 16, 2012 • 1 Comentário

Ontem recebi uma ligação da minha mãe dizendo que a Tieta, nosso bentevizinho, foi embora.

Tieta era a mais recente habitante da nossa casa, onde estava provisoriamente acolhida desde dezembro, quando a encontrei, filhotinha, ao pé de uma árvore. Tinha umas penugens amarelas e piava forte. Talvez ela fosse o filhote mais fraco do ninho e por isso caiu, como acontece geralmente. Mas era corajosa e estava disposta a agarrar uma segunda chance. Não demonstrou medo quando eu a peguei com essas mãos enormes, no meu melhor esforço de delicadeza. Assim que se viu segura numa caixa, já desatou a exigir comida, ao que atendemos prontamente com uma papinha especial para filhotes de aves.

Tieta é, na verdade, um passarinho de muita sorte. Comprei a papinha, e a dona da Pet Shop deu de brinde uma seringa para alimentar o bichinho. Comprei um suporte para ninho onde ela pudesse ficar mais confortável, e no dia seguinte encontrei no meu quintal um ninho inteiro e vazio, num galho caído. Assim que ela se viu no ninho, já se sentiu toda à vontade, ficou confortável e quentinha, como se ele tivesse sido feito especialmente para ela.

Ela cresceu rápido e em poucos dias já estava exercitando as asas. Não demorou muito para que o exercício se transformasse em prática, e logo Tieta estava voando serelepe pelo nosso jardim de inverno, que virou seu novo habitat. Gostava de ficar no lustre, fazia cocô em tudo e piava indignada quando demorávamos para lhe dar comida.

O plano era cuidar dela até que ficasse adulta e pudesse continuar sua trajetória pelo mundo lá fora, a que todos os pássaros pertencem. Mas mesmo depois de trocar todas as penas, a Tieta parecia  recusar-se a crescer; queria continuar comendo papinha na seringa e não demonstrava o menor interesse pelo mundo atrás da porta de vidro. Chegamos a pensar que ela ficaria.

No último fim de semana, decidimos que era hora de dar a ela uma chance de experimentar. Abrimos a porta de vidro e ficamos, eu e minha mãe, acompanhando ansiosas os momentos de estranhamento do bichinho, sentindo o sopro fresco que vinha lá de fora. Ela sabia que a porta estava aberta, mas não quis saber de sair. Preferiu pousar nas nossas cabeças, como ela gostava de fazer, morder meu cabelo e minha pantufa, ficar deitada no meu ombro piando baixo. Nada de ir lá fora. Combinei com minha mãe que ela deixaria a porta um pouco aberta todo dia, para que ela se acostumasse.

Ontem, o tempo estava bom e minha mãe abriu a porta da varanda, sem esperar grandes progressos. Enquanto ela limpava a bagunça, Tieta, que estava quietinha lá no lustre, se lançou no ar e passou direto pela porta aberta. E, sem nem ao menos se deter numa árvore próxima, sumiu-se para o alto do morro, onde há um pedacinho de mata.

A minha mãe me ligou feliz, surpresa e meio sentida, pq a Tieta nem deu um “até logo”. Assim são os pássaros: eles são capazes de aprender e conviver com a gente, mas o instinto é para eles a palavra final. O instinto que chamou Tieta para o mundo de repente, sem hesitar, para ela ser aquilo que não poderia nunca deixar de ser: um pássaro no mundo, pequeno e poderoso no céu imenso e na teia da vida.

A Tieta não foi o único passarinho que eu adotei, criei e depois libertei. Eu sei que eles vão embora sem agradecer e sem olhar para trás, e por isso dedicar-se a um bichinho desse, a salvar-lhe a vida, é um ato de amor cuja recompensa é a vida em si, e nada mais. Eu é que lhe devo ser grata por me proporcionar isso mais uma vez.

Mas bem no fundo eu acredito que, a Tieta deitadinha no meu ombro, piando baixinho, estava me agradecendo. Seja feliz, Tieta.

A um amigo

•Abril 1, 2011 • 1 Comentário


É piegas, mas quero escrever um post de despedida para o meu cachorro.

Alfred era um dos filhotes da Frida. Não era pra ele ficar mas, como sempre, acabou ficando. Ele era o filhote de direito da dona do cachorro pai. Mas ela o colocou a venda numa gaiola e nós o trouxemos de volta pra casa. Quando apareceram umas pessoas pra adotá-lo, ele já estava muito grande e eu já gostava dele demais. Não deixei.

Sem saber, demos pra ele o nome mais adequado. Alfred era um cachorro nobre, sabe. Muito educado, passeava direitinho na rua e se comportava muito bem para tomar banho. Mas também era cheio de manias, era muito irritável, tinha aspirações de macho alfa a ponto de enfrentar cachorro muito maior – e sair sempre machucado, claro. Mas ele nunca aprendia.

Ele também era um grande mijão. Tinha obsessão por marcar território e não perdia a oportunidade de carimbar qualquer cantinho. Nem precisa dizer que as broncas da minha mãe não adiantavam nada.

Mas como era bom vê-lo satisfeito, abanado largamente o rabo comprido de beagle. Alfred também tinha os olhos cor de mel.

Os cães têm a vida mais curta que a nossa, por isso somos quase sempre nós a nos despedirmos deles. Sempre dói. Mas sempre tudo valeu a pena. Tudo que podemos fazer é garantir que eles tenham a melhor vida do mundo, e oferecer a eles carinho, comida e um cobertor quentinho. A esse pouco, eles correspondem com amor incondicional e companheirismo. Além de muita traquinagem.

Espero que o Alfred tenha sido feliz na nossa companhia. Eu me despedi dele como pude. Não pude estar com ele até o final, mas espero que ele tenha se lembrado de todos os carinhos, passeios, afagos, broncas, comidas, corridas e apertos ao longo de todos esses anos. Eu, pelo menos, vou me lembrar sempre.

Agradeço a ele por todos esses bons momentos.

As lágrimas vão secar e se transformar numa memória doce do meu cãozinho fleumático.

Imersão

•Março 25, 2010 • Deixe um comentário


Lembrei esses dias dessa foto tirada pelo Marcelo Toledo (http://www.flickr.com/photos/toledos) e senti saudade dela. Resolvi colocar ela aqui, e então achei engraçado pelo modo como ela se relaciona, sem querer, com o meu último post q eu já tinha esquecido. As sandálias são as mesmas, e continuam velhas, macias e indestrutíveis, viveram muitas das minhas andanças pelo mundo e continuam me acompanhando.

Acho q eu sei pq gosto tanto dessa foto. Ela traduz, de alguma forma, a minha relação com o mundo. Eu gosto de estar com os pés descalços no chão, ou, melhor ainda, na água. Ainda q ela esteja fria como estava nessa tarde de início de primavera. A água e a textura da terra são uma sensualidade à qual a sola dos meus pés não sabe renunciar, e que não pode ser substituída pela mera contemplação.

Meus pés são os órgãos sensoriais da minha alma anfíbia, amante de inter-mundos, inter-fases e interfaces. Nus entre a água, o céu e a terra.

Reminiscência

•Janeiro 15, 2010 • Deixe um comentário

Hoje de manhã coloquei uma velha sandália de couro que eu não usava há muito tempo.

Assim que a calcei, ela ferveu sob os meus pés.

Foi como se eu tivesse vestido um pedaço perdido de mim, do qual eu sentia muita saudade sem saber.

 
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